
Rua (Trairi)
Nos cubos desse sal que me encarcera
(pedra, silêncios, picaretas, luas,
anoitecidos braços na paisagem)
a duna antiga faz-se pavimento.
meu chão se muda em novos alicerces,
sob as pedreiras rasgam-se os meus passos;
e a velha grama (pasto de lirismos)
afoga-se nos sulcos das enxadas
nas ânsias do caminho vertical.
Ao sono das areias abandonam-se
nesta rua vívidos fantasmas.
de seus rios-meninos que descalços
apascentavam lamas e enxurradas.
Meu chão de agora: a rua está calçada.
Zila Mamede,
Livro: Arado
Zila da Costa Mamede nasceu em Nova Palmeira, na Paraíba, no dia 10 de setembro de 1929. Ainda criança, passou a residir no interior do Rio Grande do Norte, onde moravam seus avós. Estudou os primeiros anos em Currais Novos e, mais tarde, em Natal. Entre 1955 e 56, fez o curso de Biblioteconomia, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, e um curso de especialização nos Estados Unidos. Ao retornar a Natal, organizou as principais bibliotecas da cidade, como a Biblioteca Central da UFRN (hoje Biblioteca Zila Mamede), e a Biblioteca Estadual Pública "Câmara Cascudo". Em sua produção intelectual encontram-se tanto trabalhos ligados à área da biblioteconomia, como da literatura.Estreou com o livro Rosa de Pedra, que foi saudado efusivamente pela crítica. E Salinas, o segundo livro, recebeu o prêmio "Vânia Souto Carvalho", de 1958. Depois desse, a autora voltou-se para seu passado de menina sertaneja e as paisagens da infância, e construiu aquele que pode ser considerado seu melhor livro: Arado, publicado em 1959.Os anos seguintes foram dedicados às pesquisas sobre as obras de Câmara Cascudo e de João Cabral de Melo Neto. Apenas em 1975 retoma à poesia e publica Exercício da palavra, que traz como novidade a temática urbana e a preocupação com estratégias da vanguarda, então utilizadas pela poesia concreta e o poema processo. Em 1978 publicou Navegos, contendo o conjunto de sua poesia conhecida mais um novo livro — Corpo a corpo. Em 13 de dezembro de 1985, Zila Mamede sentiu-se mal e afogou-se, quando nadava no Rio Potengi, como costumava fazer quase diariamente.